[Recomendação] Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida

“Enquanto todo mundo vai correndo, eu vou lento
Enquanto todo mundo vai”

Hidrocor, “Planos Pro Ano que Vem”

 

Sinopse:Clara (Clarice Falcão) está indecisa em relação às suas escolhas. A jovem está cursando a faculdade de Medicina por pressão familiar e não por vocação. Sem contar para ninguém o que está sentindo, ela passa a matar aulas no período da manhã. Durante essas aventuras matutinas, Clara conhece um rapaz que a ajuda a encontrar um norte para sua vida. 2013 – dirigido por Matheus Souza.

Eu não tenho palavras para descrever o quanto eu me identifiquei com essa produção nacional, maravilhosa, por sinal, que é o Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minh vida. Nada deve descrever melhor essa loucura que a vida se tornou para a minha geração e de tantas outras. Altamente recomendado.

A obrigação. O perdido. O que é de fato viver? A gente vai tentando viver achando que devemos fazer o que é melhor pra todo mundo, sem nunca ter parado para pensar no porquê disso tudo, ou então, sem sequer nos conhecer antes. E o por quê? Temos medo de errar. De tomar as decisões erradas. Mas e se a verdadeira essência for tomar as decisões erradas e aprender com isso?

Como um relato pessoal, andei os últimos meses perdida. Depois de me apaixonar, cair, e perceber que eu estava fazendo tudo errado (tudo mesmo). Abandonei quem eu não devia ter abandonado e fui gostar mais de alguém do que de mim mesma. Completa e totalmente desamparada. E esse filme me iluminou, e muito. De fato, uma produção nacional nunca me decepciona. Eu ando nesse processo louco que é se redescobrir, se autoconhecer, me perdoar e me aceitar. Me achei completamente desconhecida para todos e até para mim mesma. Do que eu gosto? Quais são os meus hobbys? E na verdade, nem eu mesma sei responder essas questões. Vou me dar ao luxo de experimentar. Tudo que me fizer bem. E se a gente errar, a gente se reencontra, se levanta e vai à luta novamente.

“e mesmo que se perca-
perder-se também é caminho.”

-Clarice Lispector.

Ser e não ser.

Crescemos ouvindo e aprendendo que tudo no mundo sempre se dividem em dois. Preto e branco. Homem e mulher. Bem e mal.

O meio termo não existe. E você é responsável pela sua escolha. Mas você não pode ficar na dúvida. Você tem que escolher.

“Mas uma pessoa que faz isso é uma pessoa ruim.”
“Isso é certo e aquilo é errado.”

Essa divisão tão dualista só foi rompida em mim, após muito tempo refletindo. Somos seres tão complexos, que não é possível que sempre estejamos diante de duas possibilidades somente. É o ser ou não ser.

Vivendo e conhecendo as pessoas e as coisas fantásticas no mundo, percebemos lentamente que não somos só isso ou aquilo. Podemos ser tudo.
Entre um oposto e o outro, ainda existe uma imensidão de possibilidades.
Chega daquela matemática exata em que a respostas para um problema é somente aquela solução ou outra semelhante. Chega de “ou’s”. Quero viver de “e’s”.

Ser preto e branco.
Ser homem e mulher.
Ser bem e mal.
Ser certo e errado.
Ser lua e sol.
Ser tudo e não ser nada.

Ser e não ser. Essa, sim, é a verdadeira questão.

 

Artwork: James R. Eads

Devaneios.

Ando por aí pensando o que tenho feito na vida. A resposta beira a mediocridade. Indo e vindo de acordo com a maré e com as mudanças de direção do vento. Não de maneira metafórica positiva e filosófica, mas como alguém que não sabe para onde ir e se deixa levar por tudo.

Não tenho tido convicção, nem do que faço, nem do que digo.

Ando sem certeza de muita coisa. A minha única certeza é que não sei quem sou, nem onde estou, nem o que ando feito de bom para mim e para os outros.

A vida anda um caos em extrema dinâmica.

 

 

artwork: Audrey Kawasaki

[Recomendação] Mondrian e o Movimento Stijl

“Eu desejava me aproximar o máximo possível da verdade, portanto, eu abstraio tudo até alcançar a qualidade fundamental do objeto”

-Piet Mondrian.

Retas. Planos. Cores puras. Abstração.

Piet Mondrian é um icone do neoplasticismo. Tudo que ele e o Movimento Stijl representam é difícil de se colocar em poucas palavras. Um novo tipo de arte, uma abstração que busca a realidade e a simplicidade. Quando a cor se torna uma qualidade, e não só mera característica.

O Centro Cultural do Banco do Brasil, localizado no Centro Histórico de São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112), recebe a exposição Mondrian e o Movimento Stijl até o dia 04/04/2016. A exposição conta com obras de Mondrian e outros artistas do mesmo movimento, além de uma vasta coletânea de réplicas e maquetes, rementendo às demais áreas que o movimento abrangia, como a Arquitetura e o Design. Ilustres figuras como Theo van Doesburg, Gerrit Rietvield, entre outros, são contemplados ao longo da exposição.

(Fotos: @herrooyuki)

Acompanhados de documentários e textos explicativos, os conceitos do Movimento são bem colocados ao longo da mostra. A intenção da obra se sobressair à moldura; a praticidade dos móveis em um contexto pós guerra, cercado das mais diversas dificuldades; a Arquitetura que mescla o interior com o exterior; arte em transição; chegar ao elemento em sua pureza. Modernidade.

Recomendado para todas as idades, a mostra explica bem as intenções e princípios desses artistas, conta com um acervo completíssimo de obras, que inclusive mostram todas as referências e fases de Mondrian, antes deste chegar de fato à abstração.
Achei muito interessante e didático, quebrando vários preconceitos que se costuma ter a respeito de Mondrian, mostrando que não são somentes “linhas e planos desenhados e jogados ao acaso”, mas sim, algo pensado e devidamente estudado.

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Processo de abstração (árvores de Mondrian)

Devo dizer que foi uma exposição incrível, com um acervo enorme, foram necessárias ao menos umas 4h para poder realmente vê-la por completo. E, devo admitir que a parte que mais chamou a minha atenção foi a de Arquitetura (minha xodó nas artes). A capacidade de mesclar os campos, que são, ao mesmo tempo, distintos e iguais.

“A arquitetura une, cria laços. A pintura liberta e desagrega. Pelo fato de terem de realizar funções essencialmente diferentes, é possível um convívio harmonioso.”

-Theo van Doesburg.

  • Para visitar a Exposição é necessário ingresso, apesar de ser entrada franca. Assim, o ingresso pode ser obtido na própria bilheteria ou no anexo abaixo.

Para mais informações a respeito da exposição: site do CCBB.

O Beijo

“O beijo é uma estrofe que duas bocas rimam.”

-Coelho Neto.

É possível retratar com a fidelidade que buscamos a sensibilidade que se carrega no ato do beijo? A sensação do contato, do calor que nele se revela aos poucos. A intimidade que nele se inicia. A tranquilidade e, ao mesmo tempo, a ferocidade que ele desperta. Os lábios se tocando, iniciando-se na pele e interiozando na alma. O beijo que não só tem efeito físico, mas também astral.

Não é difícil citar artistas que tentaram realizar um registro do estranho, mas prazeroso ato: temos Gustav Klimt, Egon Schiele, Auguste Rodin, Pablo Picasso, entre muitos outros.
Cada um o retratando a sua maneira, com o seu olhar e traço.

Klimt o retrata de uma maneira terna, delicada, erotizada. Como o beijo que traz tranquilidade, conforto, mas ainda é carregado de mistérios. O Beijo de Klimt se tornou Pop, quase uma marca.

Schiele, fortemente ligado ao próprio Klimt e a tudo que ele significava, pinta a intimidade do casal carregado de melancolia e morbidez, mas também de erotização. O ato (que apesar de não ser um beijo de fato, mas possui tanta expressão quanto o beijo em si) se apresenta desesperado, angustiante, mas ao mesmo tempo, impressionante. Sem dúvida, sublime.

Rodin esculpe uma história. O beijo que não existiu. Um espaço entre os lábios dos amantes. Quando uma nobre italiana do século XIII (Francesca da Rimini – de O Inferno de Dante) se apaixona pelo seu cunhado e tenta junto a ele viver um romance, a descoberta da traição leva à morte do casal. Os lábios que nunca se tocam. O ato permanece-se interrompido.

Picasso. A geometria da emoção através do cubismo . O beijo distante, azul, que não retrata o beijo como um ato, mas como um mero gesto, superficial e sem paixão envolvida, expressando a razão. Os olhos abertos, distantes e perdidos. A suavidade se esvai em seus traços e paleta de cores. Um beijo quase melancólico.

 

 

Muitas interpretações a cerca do beijo podem ser encontradas. Talvez a subjetividade de tal ato nos leve a diferentes respostas e sensações. Não existe uma verdade absoluta quando o assunto é emoção, o sentir. A vida está carregada dos mais diversos mistérios. Mistérios prazerosos, que assombram, que impressionam, que nos impactam. E a Arte é uma das melhores formas de trazê-los à tona. Fazer sentir só pelo olhar. Trazer emoções só de se estar na presença.

“A Arte evoca o mistério, sem o qual o mundo não existiria.”

-René Magritte.

[Recomendações] Frida: inspiração e luta – uma história

“Minha pintura carrega consigo a mensagem da dor.”

-Frida Kahlo.

Eu gostaria de começar com mil citações de Frida Kahlo, mas acho que essa é uma das que mais descreve a sua vida. Sua vida se resume a sofrimento. Frida passou por um acidente gravíssimo, problemas sérios de saúde e relacionamentos difíceis, mas nunca deixou de acreditar em seus princípios e pintar. Pintar para fugir, para esquecer. Pintar para viver. Uma mulher que não se esconde nas sombras de seu marido Diego Rivera. Uma inspiração em toda sua essência.

Hoje a recomendação que trago é um filme biográfico. O longa Frida foi dirigido por Julie Taymor e lançado em 2003. Esse filme foi indicado ao Oscar 2003 em diversas categorias (de melhor atriz -Salma Hayek-, melhor direção de arte, melhor figurino, melhor canção original), tendo vencido nas categorias de melhor maquiagem e melhor trilha sonora, além de outros prêmios.

Frida relata de maneira bem fiel a biografia da artista, desde o seu envolvimento com o meio artístico e político até detalhes íntimos de sua vida. De maneira sensível, o filme relaciona as diferentes fases da protagonista com seus quadros, de certa maneira os explicando e mostrando o que de fato Frida já afirmava:

Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.

-Frida Kahlo.

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Feminista. Politicamente engajada. Desapegada dos valores impostos pela sociedade. Frida era um ser livre.

Para quem é fã de artes e se interessa pelo peculiar olhar de Frida Kahlo sobre o mundo, recomendo altamente. O filme tem um ritmo bem agradável, segue a linearidade dos fatos por ser biográfico e consegue passar bem a história ao espectador de maneira que não seja entediante (o que geralmente costuma ser um desafio aos filmes desse gênero), retratando todas as faces de uma mulher que inspira até hoje inúmeras gerações de artistas.

O filme é o segundo longa que retrata a vida da artista. Disponível no Netflix (para a felicidade geral da nação).

Obrigada por lerem!

[Inspiração] Sarah Andersen: situações de uma jovem introvertida

Nada vale mais do que uma risada. É sinal de força gargalhar e se abandonar, ser leve.

– Frida Kahlo.

A [Inspiração] de hoje é a ilustradora Sarah Andersen, autora de Sarah’s Scribbles (Doodle Time). Suas tirinhas mostram situações cotidianas de uma garota/mulher adulta introvertida, incluindo relações amorosas, dificuldades, procrastinação e problemas do dia a dia. Com um traço divertido e bem caricaturado, apresenta enredos simples, mas ainda assim bem cativantes.
Não tem como não acabar se identificando com algumas das tirinhas escritas por ela. Eu simplesmente amo ♥
Encontrei as tirinhas acidentalmente fuçando o Tumblr. Acabei encontrando a página dela e li a maioria delas. Enfim, não tenho nada muito profundo a dizer a respeito de sua arte. Acredito que suas intenções realmente sejam mais superficiais, trazer o humor, deixar o peso do cotidiano o mais leve possível. Fazer com que esqueçamos de alguns problemas. Trazer o poder da comédia.

Já tendo publicado alguma de suas obras, Sarah Andersen está prestes a publicar mais um coletânea de tirinhas: Adulthood is a myth, em tradução livre: A maioridade é um mito.

Confira ainda: Página do Facebook | Página Oficial

[Recomendações] O Menino e o Mundo: a realidade sob o olhar de uma criança

É o mundo nas costas e a dor nas custas
[…]
Morre a esperança
E tudo isso aos olhos de uma criança…

Emicida, “Aos Olhos de Uma Criança”.

Com uma coluna novinha em folha, trago um assunto que está na boca e ouvidos de muita gente: A indicação ao Oscar 2016 de Melhor Animação de O Menino e o Mundo. O filme dirigido por Alê Abreu, diretor paulista, e produzido pela Filme de Papel, foi lançado em 2013. E apesar de não ter tido muita audiência no Brasil em seu lançamento, a animação cativou um grande número de espectadores nas telas do mundo a fora, tendo recebido até o momento 45 prêmios internacionalmente.

O filme conta a história de um garoto que deixa o local onde mora em busca de seu pai, que partiu devido a dificuldades financeiras. A sua partida não só se torna uma aventura em um mundo completamente novo e desconhecido, como uma jornada de conhecimento de si e do que o rodeia. O menino se depara com situações nada utópicas, um mundo que ao mesmo tempo possui magia, possui suas mazelas. Tudo isso sob o inocente olhar de uma criança.

A concepção da arte do filme condiz muito com o roteiro e suas intenções. As diversas técnicas utilizadas na animação (incluindo lápis de cor, giz de cera, tinta e colagens) desperta o lado lúdico do universo infantil nos espectadores. Ou seja, toda a trama é vista sob a perspectiva do olhar do menino.

Com um roteiro realmente cativante, a história se torna atemporal e, de certa forma, possui um aspecto universal. Não é necessário que haja falas totalmente compreensíveis para que o filme possa ser entendido. Os diálogos foram todos invertidos após a sua gravação, o que conseguiu trazer ainda mais graça ao filme. Seus efeitos sonoros foram criados de forma a se inserir mais na perspectiva do menino.

 

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Sob o meu ponto de vista, O Menino e o Mundo é um filme absolutamente lindo. Sem nada a incluir ou tirar. É uma animação que possui muita graça, carrega uma história mágica, mas também triste. A perspectiva de uma criança sobre uma realidade dura do mundo. Agradando um grande público, tanto pelo seu significado quanto pela sua arte, é um filme que recomendo altamente.
Quando ouvi falar pela primeira vez dessa animação, só escutei críticas positivas ao seu respeito, tanto de amigos quanto da minha irmã (futura cineasta, se assim o mundo conspirar ao seu favor). O que achei engraçado é a maneira como o filme nos prende, pois assim que comecei a assistir o filme, o meu irmão (de 2 anos de idade), logo se juntou e começou a acompanhar maravilhado a todas as cenas, que contém muita cor e música. É realmente um filme cativante e posso dizer com todas as palavras que eu simplesmente amei.

Eu realmente espero que o Alê Abreu consiga levar esse Oscar, trazendo um pouco de reconhecimento para o cinema brasileiro, que merece, sim, ser apreciado devidamente. Temos uma cultura muito rica para mostrar e produções artísticas de extrema qualidade. Realmente espero que o Brasil e toda essa produção cultural recebam o devido reconhecimento.

Confira ainda: Trailer do filme | Página do Facebook

P.S.: Para os que vivem ou estão de passagem na cidade de São Paulo, no dia 24 de janeiro, ocorrerá uma exibição do filme ao ar livre na Cinemateca Nacional. Evento no Facebook ♥

[Intervenções] Microrroteiros da cidade

Toda forma, toda cor, significa um sentimento: não existe nada no mundo que não diga nada.

-Wassily Kandinsky.

Para a postagem de hoje (e, sim, mais uma coluna diferente), venho com um assunto extremamente interessante, atual e significativo no contexto social: as intervenções urbanas.

Mas o que seriam as intervenções urbanas? Pode-se dizer que são uma forma apropriação do espaço livre (apropriação no sentido público e positivo), ou ainda, uma forma de interação do público que habita a cidade com o espaço dela em si.

Intervenções urbanas geralmente se ligam a atos ideológicos e artísticos. Um meio de expressão, protesto, que, em sua maioria, querem nos abrir os olhos para algo que não vemos ou não queremos enxergar.

Hoje, apresento um projeto realizado na cidade de São Paulo, iniciado em 2009 (permanecendo-se até hoje) por Laura Guimarães. Com o intuito de ligar o cotidiano à imaginação, os microrroteiros da cidade são pequenos cartazes (lambe-lambe), colados em postes ou em muros, descrevendo cenas em poucos caracteres. Isso faz com que as pessoas que passem e leiem os roteiros acabem imaginando situações a que as cenas se apliquem ou as relembrem algo relacionado a elas. O projeto nos faz lembrar que somos muitos e que cada um carrega em si uma história.

Meu primeiro contato com um desses microrroteiros foi quando fui à feirinha da Praça da República, e andando um pouco mais, cheguei próxima ao Minhocão, lá, juntamente a tantas outras intervenções, encontrei alguns dos microrroteiros. Logo que os vi percebi o caráter imagético que eles carregam e me interessei pelo projeto.

 

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Microrroteiros encontrados embaixo do Minhocão. Foto: @herooyuki

Para mais informações e fotos acerca do projeto: Site | Facebook.

E você? Já encontrou um microrroteiro pelas ruas de São Paulo?